O drama dos Corleone

Então, finalmente, na reta final dos meus 22 anos, assisti a aclamada trilogia de O Poderoso Chefão. Apesar de sempre assistir a muitos filmes, amar cinema e tudo mais, nunca tinha despertado o interesse em acompanhar a história da família Corleone. E agora que esse momento chegou, vou dividir com vocês essa experiência – especialmente com você que, assim como eu, também não sabia muito bem qual era a do filme.

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O Poderoso Chefão (The Godfather, que, apesar da boa tradução, é muito mais simbólico em inglês) vai contar a história de Vito Corleone (Marlon Brandon), um mafioso poderosíssimo de Nova York que procura estabelecer a sua supremacia nos negócios. Além disso, temos também a sua relação com a família e com os seus “vassalos” – famílias menores que se aliam a ele, e que, também acabam fazendo parte da “família da máfia” Corleone.

Como um bom filme de máfia, temos muitas articulações políticas, pessoas do governo corrompidas, uma família mafiosa querendo acabar com a outra, planejamento de assassinatos e pessoas traidoras. E para ilustrar muito bem isso, Vito sofre uma tentativa de assassinato, e, assim, seus filhos Sonny (James Cann) e Michael (Al Pacino) tem que tocar o negócio (está na sinopse isso, não é spoiler).

De início posso adiantar que definitivamente não é um filme fácil de assistir, pois cada um tem 3 horas de duração, o que exige um preparo tanto no seu dia quanto psicológico. É um filme violento, lento, e que exige atenção – se você tirar um cochilo, vai ter que voltar de onde parou para entender o que está acontecendo e quem são essas pessoas novas que surgem a todo o momento, experiência própria. Então, se você é o tipo de pessoa que não curte “filme de pensar”, eu acho que esse é um clássico que você pode passar sem ver.

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A minha experiência com o primeiro filme foi magnifica e eu sai encantada, picada pelo mosquito da hype e enaltecendo Coppola, Marlon Brando, Al Pacino e Diane Keaton. O filme ganhou Oscar de Melhor filme, Melhor Ator e Melhor Roteiro Adaptado – merecidíssimos, e impulsionadores da expectativa, que foi atendida e superada. Trilogia que abraça o drama e a tragédia (quantas tragédias) do jeito que eu amo, que traz toda uma sentimentalidade e melancolia haha.

Esse foi meu primeiro contato com Francis Coppola. E sim, eu amo cinema e nunca tinha assistido a nenhum filme desse diretor consagrado premiado famosíssimo, e está tudo bem. O filme é realmente uma obra prima e eu ficava chocada com a direção, com a fotografia, com a atuação, com tudo. Um filme de 1972 tão lindo, tão bem executado, que em pleno 2017 ainda é maravilhoso, rico e basicamente uma aula. Palavras me faltaram aos montes para expressar meu encanto, sério.

Coppola também é responsável pelo roteiro, junto com Mario Puzo (autor do livro – é um roteiro adaptado), e meu Deus, que roteiro! A história te envolve, te prende, e você fica apegado à família ao ponto de se ver envolvido nos dilemas éticos, assim como os outros personagens. Os diálogos são cheios de subtextos, e ajudam muito a criar um clima de tensão. O filme é cheio daqueles tão conhecidos climões familiares, e ele passa tão bem isso – o medo de contrariar Don Corleone, as pisadas em ovos diante de um familiar meio imprevisível, o parente meio desagradável que só se lembra de você na hora de pedir favor.

Por fim, queria dar destaque aqui ao desenvolvimento de personagem de Michael Corleone. Ele, de longe, foi meu personagem favorito e o que mais carregou minhas emoções ao longo do filme. É clara a contradição dentro dele em não querer ser como seu pai, não concordar com os negócios, mas o seu amor e devoção por ele e por sua família. Os conflitos do personagem ficam visíveis, e as atitudes que ele vai tomando ao longo do filme ajudam a construir uma nova pessoa. Al Pacino fez um trabalho surreal de excelente e não imagino ninguém mais nesse papel.

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Agora começam os problemas. Apesar de ter amado e me encantado absurdos com o primeiro filme, a continuação já foi bem mais ou menos, e decepcionou. Eu vou tentar não dar muitos spoilers, mas para falar do filme dois tem que falar do um né. Então, sim, é um pouco de spoiler.

No segundo filme temos Michael Corleone como o chefe da família, e continuamos na sua contradição de não concordar com os negócios, mas ser dali que consegue sustentar sua família e oferecer uma vida muito confortável. E, agora como o novo Don, temos a ganância por poder, o deslumbramento da influência, e a vontade de ir além, apostando em novo negócios. Michael é oficialmente um criminoso perigoso e respeitado no meio.

É nesse segundo filme que temos Robert De Niro como Vito Corleone jovem, criando um flashback de como a família surgiu e entrou nesse mundo dos crimes. O que é legal, é bem feito, mas ajuda o filme a ficar longo, porque a sensação que dá é que existe dois filmes lentos simultâneos. As 3 horas de duração são muito mais sentidas, e a trama principal não é tão envolvente quanto a do outro longa.

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Eu gostei do segundo filme, não tanto quanto o primeiro, mas foi bom. Temos algumas explicações sobre o surgimento da colônia italiana nos Estados Unidos e como se formaram as grandes famílias mafiosas, o porquê ingressaram no crime e a introdução desse ímpeto violento nesse contexto. Enquanto no primeiro filme temos a ascensão da família, nesse as coisas já começam a dar meio errado, o impacto da mudança do mundo nos negócios e nas relações interpessoais. Inclusive impacto do empoderamento feminino no contexto da dinâmica familiar tradicional – e aqui vai o destaque para a personagem da Kay (Diane Keaton), que apesar de ser praticamente a única mulher de destaque nos filmes, traz uma representatividade e personalidade incríveis a história.

Michael Coleone me decepcionou muito, e todo o encanto que eu tinha pelo personagem começou a morrer. Aqui é o início da queda da família Corleone, e o conceito de “fazer de tudo pela família” começa a se perder. Entendo que isso faz parte da trama, que queria ilustrar como as coisas não vão seguir da mesma maneira ótima que seguiam com Vito, e que eu era Kay nesse momento, me desapaixonando a cada minuto por Michael e achando ele um hipócrita. Eu me desconectei com o personagem, e a empatia começou a morrer. Também acho que faltou uma edição no filme e que poderia ter durado menos tempo.

Acredito que funcionaria bem se a história fosse apenas um duologia.  Os dois primeiros exprimiram maravilhosamente bem a ideia da família, da máfia, e do impacto da mudança das dinâmicas sociais e dos negócios. O terceiro filme foi um horror. E eu fico aqui me perguntando: Coppola, você, tão maravilhoso, por que fez isso comigo?

Enquanto os primeiros filmes são de 1972 e 1975 (uma sequência gravada em sequência, perfeita), o terceiro filme é de 1991, o que me faz ter certeza que não estava no planejamento e foi fruto de uma dificuldade de assumir que o projeto acabou. A histórias é horrível, o filme é cansativo e entediante, e, temos Sofia Coppola no papel de Mary Corleone, filha de Michael, atuando tão mal que dói a alma (Sofia, eu te amo, você é rainha do cinema, como diretora).

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Michael Corleone está insuportável. Al Pacino parece que desaprendeu a atuar (ou o roteiro não ajudou), e o personagem está descaracterizado, repetitivo e inconsistente. Na história temos mais uma vez as contradições que habitam Michael e a sua busca, torta, por redenção. Ele quer consertar as coisas que fez de errado, sair do mundo do crime, e viver em paz com a sua consciência do passado distante, antes de se tornar o chefe dos Corleone. Retomar sua família, reconquistar sua esposa, se aproximar de seus amados filhos.

Isso parece muito bonito quando se lê, mas no filme é chato, cansativo e entediante. O roteiro não emociona, não cativa, e eu fiquei profundamente triste de não ter gostado do personagem que, no primeiro filme, era o meu preferido, e de uma trilogia que começou tão magnifica, terminar assim. Eu demorei 5 horas e meia para assistir ao filme de 3 horas, de tanto que eu cochilava e pausava para dar uma volta. De novo, dava para ter dado uma editada, umas cortadas, e ficaria uma experiência mais prazerosas. Para não ser cruel, vou dizer que o final me abalou um pouco sim, não vou negar, me emocionei.

Eu talvez seja massacrada na internet por isso, mas as pessoas e o primeiro filme criaram em mim uma expectativa que foi desmoronada, doeu essa decepção (e conversei com algumas pessoas que assistiram e também não gostam muito do terceiro, viu haha). O filme concorreu há 7 indicações ao Oscar, mas não ganhou nenhuma – foi só pelo legado, eu acredito!

Apesar de grandes paixões e frustrações que Francis despertou em mim, a direção, fotografia e direção de arte de todos os filmes são sim maravilhosas, e isso não perde a qualidade. Temos também a trilha sonora emblemática que concorreu a vários prêmios e que é responsável pela identidade do filme.

Eu precisava passar por essa experiência e quero assistir a outros filmes de Coppola (aceito indicações, obrigada). Assistir ao Poderoso Chefão é agora uma experiência a mais na minha vida, e fico feliz de poder ter feito, e amei conhecer a família italiana mais famosa desse mundo. Michael, eu sei que acabei com você, mas saiba que você sempre vai ter um lugar no meu coração, tá?

 

PS: Existem vários filmes clássicos que nunca assisti, muitos mesmos, e estou nesse momento que acredito que chegou para mim. Se você, assim como eu, também tem curiosidade de saber mais sobre os filmes que são tão clássicos e hypados por ai, mas que tudo que você ouve é “ESSE FILME É EXPLENDIDO VOCÊ PRECISA VER, COMO NÃO VIU? AFF” vou compartilhar com vocês essa experiência. Acredito que ninguém é obrigado a assistir nada, e é fácil para quem não tem esse gosto da academia para filme se colocar numas ciladas assistindo a um filme que é ótimo, mas não é para você haha. E você também não é obrigado a gostar de um filme porque falam que é bom, pode ser bom, e pode ser chato – pode ser ruim, e pode ser legal.

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