Quinze Dias com Felipe, melhor pessoa.

Recentemente fui ao lançamento de Quinze Dias, do Vitor Martins (um booktuber muito amorzinho) e, quando resolvi que esta seria minha próxima leitura, não esperava tantas emoções. Fui atingida por vários sentimentos e reflexões que não esperava, e acabei olhando um pouco para mim, para quem eu fui, e para quem eu quero ser.

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Nesse livro vamos acompanhar a história de Felipe, um jovem gordo e gay no último ano do colégio, ansiosíssimo para suas férias de inverno, na qual poderá ficar sozinho em casa, em paz, livre dos tormentos da escola e colocando todas suas séries em dia. Só que, logo no primeiro dia, ele descobre que seu vizinho, o Caio do 57, seu crush de infância, irá passar 15 dias na sua casa, dormindo no seu quarto, porque os pais vão viajar e ele não pode ficar sozinho.

Felipe não tem amigos, sofre bullying, e é muito inseguro e recluso. Só que, Felipe também é uma pessoa muito divertida, sarcástica e maravilhosa, e foi uma experiência única poder acompanha-lo por essas quase 200 páginas. É tão natural conviver com ele, amar suas referências ótimas, seu jeito meio geek – enciclopédia gay e observar o seu crescimento. O livro inteiro é basicamente sobre o desenvolvimento dessa personagem, e eu amo livros que são assim! Felipe surpreende, inclusive a si mesmo, e muda tanto em 15 dias, que desperta um sorriso no rosto.

Essa mudança não seria possível, é claro, sem a presença constante de Caio em sua vida, outro personagem fofura. Caio é bem diferente de Felipe, não só na aparência, mas no jeito mais extrovertido, e leigo no universo de Felipe haha. Só que ele também tem seus problemas, suas questões, e que vamos descobrindo a medida que os dois vão se aproximando. Caio nos mostra que cada pessoa tem uma questão consigo mesmo, e que as pessoas talvez estejam na mesma situação, mas a encaram de forma diferente. Caio também tem uma melhor amiga, Beca, que rouba a cena sempre que aparece, além de sempre surpreender a todos, eita menina empoderada!

Quero também destacar a cândida a melhor personagem do livro, a mãe de Felipe, dona Rita. Que mulherão da porra! Dona Rita é artista, ama e apoia muito seu filho, e é extremamente divertida, compreensiva e amiga. Quem não sai do livro querendo conversar com essa mãe? Ela também é viciada nesses reality shows do Discovery Home&Health, que são maravilhosos de tão ruim! É aquela personagem que você fica ansiosa para aparecer, que você quer dar um abraço, e que aquece seu coração.

O livro é super curtinho, mega leve e divertido, e foi uma leitura que eu precisava naquele momento meio pesado da minha vida. Felipe me fez gargalhar várias vezes, e ficar com nó na garganta em outros. Nos três primeiros capítulos eu já estava convencida de que nós éramos a mesma pessoa. A diagramação é ótima, os capítulos são pequenos e muito dinâmicos, a leitura flui facilmente, e no final eu só fiquei com muita saudade de todos os personagens. Fora que a capa é tão lindinha e diz tanto do livro à medida que a história vai correndo, e foi o próprio Vitor quem fez!

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A essa altura você já deve ter percebido que essa é uma história sobre diversidade – e tem muito mais do que eu disse, só guardei por motivos de spolier. Eu nunca tinha lido um livro no qual o protagonista fosse gordo, e isso doeu muito em mim, pois é uma realidade muito distante da minha. Ao longo do livro vamos acompanhando o quanto a aparência é uma questão enorme pro Felipe, que o leva a ter uma insegurança absurda, que atrapalha a sua vida!

Eu sempre fui magra, e sempre fui fortemente incentivada a permanecer assim. Engordar era algo terrível, algo que deveria ser evitado a todo custo. Durante toda a minha vida, o gordo sempre foi apontado como errado. As pessoas disfarçam um pouco apontando a saúde como o foco, mas não vamos tirar o peso da aparência. Eu cresci ouvindo apelidos diversos e horríveis, vendo as pessoas definirem uma pessoa gorda como “O Gordo”. Todos ao me redor sempre julgaram muito, sempre rotularam, e pessoas gordas sempre foram alvo disso.

Por isso eu não vou me excluir. Nunca fui uma pessoa escrota, nunca pratiquei bullying, nunca ofendi um gordo na cara e fiz brincadeirinhas patéticas. Mas já fiz piada, já ri, já fui incompreensiva, já julguei, já rotulei. E tudo isso é uma construção social terrível, nociva e muito fácil de adotar. Adolescência é um período cruel, difícil, e definitivo em certas coisas. Nunca tinha pensado em como a maldade dos outros por uma coisa tão irrelevante (afinal, o peso de alguém é importante?) poderia deixar alguém incrível tão mal.

Eu entendia tudo o que ele falava, todas as situações que ele mencionava. Eu já havia visto várias pessoas naquela situação. Só nunca tinha parado para pensar em como ele se sentia ali, ou a causa de certos comportamentos. Há algum tempo, menos do que gostaria, comecei a pensar em como era delicada as circunstâncias de pessoas sobrepeso. Em como eles eram julgados a todo momento, e como todo mundo cuidava da vida deles o tempo inteiro. Como as coisas não são adaptadas a eles – ignorados por engenheiros, por exemplo. Nem comer, a coisa mais feliz e relaxante, é um momento tranquilo, porque sempre tão julgando o que eles escolhem.

Ser magra nunca foi sinônimo de autoestima elevada para mim, mas hoje percebo que eu tinha que lidar com isso apenas comigo, nunca tinha gente fazendo piada, brincadeiras de mau gosto, e bullying por conta do meu peso. Nunca fez sentido para mim a conotação que as pessoas dão a adjetivos que definem a mesma coisa: magro é elogio, e gordo é ofensa – não tem a menor lógica. E, por fim, acredito que beleza é algo tão mais amplo do que apenas um peso na balança, uma medida da fita métrica. O que realmente importa numa pessoa não é seu caráter? Então, pois é.

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Como já disse, a minha identificação com Felipe foi imediata. Nossos gostos, nossa timidez, nossa insegurança com tudo, nossas piadas, nossas paranoias – basicamente a mesma pessoa, sério, chegava a ser assustador o tanto de semelhança. Eu amei Felipe no instante em que o conheci. Poderíamos facilmente sermos melhores amigos. E seria horrível, uma verdadeira tragédia, que eu jamais soubesse disso se tivesse parado na primeira coisa que vi (no caso, soube) sobre ele: que ele era gordo.

O livro trata de outras coisas maravilhosas também – eu que me apaguei na parte que mais me tocou. Mas se pudesse eleger um tema, seria insegurança. Eu sou um poço de insegurança, dessas que fazem a gente tomar umas atitudes que não condiz com nossos desejos. E ver o Felipe superar isso, ao mesmo tempo que me dava uns bons tapas na cara merecidos, fez toda a experiência valer muito a pena – e a acreditar um pouquinho mais em mim.

Felipe me ensinou tanto que eu me senti na obrigação de espalhar sua mensagem para pessoas que não são como ele, são como eu! Eu acredito que a importância de personagens como Felipe vai além de representar um grupo que por muito tempo foi excluído e motivo de chacota, mas serve também para causar empatia em pessoas que são tão diferentes. Em mostrar uma realidade que muitos não conhecem e subestimam. Conhecer Felipe me fez uma pessoa melhor – e tudo isso em 200 página, sério!

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