Taboo – Uma experiência complicada

Recentemente assisti a Taboo, a nova série do Tom Hardy distribuída aqui no Brasil pela Fox Premium. Demorou um pouco para conseguir formar uma opinião a respeito, mas acho que consegui chegar lá.

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Na série vamos acompanhar a história de James Delaney (Tom Hardy), que passou cerca de 10 anos perdido na África e volta para Londres para o funeral de seu pai. James havia sido dado como morto, e o seu retorno é marcado por vários boatos, receios, e, claro, muita briga. Isso porque Sr. Delaney reivindica os bens de seu pai, principalmente uma ilha localizada perto do Canadá, e que é de extremo interesse da Coroa britânica e da Companhia das Índias Orientais.

A trama se passa em Londres de 1814, uma cidade muito suja e crua, perto da sua segunda revolução industrial, e em guerra com os Estados Unidos (por isso, também, a ilha é mega estratégica). É uma série forte, com cenas de violência pura e fria, onde ninguém é gentil, bom e cavalheiro. Todos os personagens lutam pelos seus próprios interesses, transitam entre o bem e o mal, e são brutais, secos e sujos, bem sujos haha. E não são muito de conversar, temos diálogos curtos, objetivos, inteligentes e excelentes!

A série foi criada por Tom Hardy e seu pai, Chips Hardy, a partir de uma ideia que os dois tiveram a um tempão – e foi por isso que eu quis assistir, chuva de Tom Hardy! Ela foi roteirizada por Steven Knight. E o meu primeiro ponto com a história é que achei ela bem simples. Em 8 episódios de 1 hora temos apenas um arco dramático, não tem nenhum outro desenvolvimento paralelo, tudo na série gira em torno do Delaney! Ok que o cara está determinado a incomodar e a causar muito, mas podíamos tirar um pouco o foco desse personagem. Ainda assim, é uma história boa e consistente, com reviravoltas, surpresas e suspense.

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Vamos comentar um pouco sobre James Delaney, o protagonista absoluto. Um homem muito misterioso, imprevisível e violento, James é um cara de poucas palavras e muitas atitudes. Fica claro que seu período na África foi insano e brutal, não sabemos o que aconteceu no continente, mas fica evidente que aquilo mexeu demais com ele. Delaney é frio, sem emoções, e muito objetivo. Tom Hardy está ótimo e um tanto quanto assustador e ameaçador, e fica difícil saber se você gosta ou odeia James Delaney, essa espécie de anti-herói impulsivo.

Por tudo girar em torno das loucuras de James Delaney, as personagens femininas TODAS existem para acrescentar ao personagem dele, e aí começa o que talvez tenha sido um dos maiores incômodos. Nenhuma personagem mulher tem seu arco dramático, seu desenvolvimento – para não ser injusta, talvez a Lorna Bow (Jessie Buckley) se desenvolva um pouquinho. Mas, de forma geral, todas elas estão ali para despertar algo no personagem principal, um acessório para profundidade dramática, para ele não parecer um psicopata, ou para ajudá-lo em seus planos mirabolantes, cumprir tarefa. Em determinado momento, todas acabam sendo salvas por Delaney, ou sofrem por causa dele. Enfim, as personagens mulheres me frustraram um pouco, pois todas tinham um perfil MUITO promissor, e pareciam interessantíssimas, especialmente Helga (Franka Potente), dona de um prostíbulo, porém não foram muito aprofundadas.

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Só vou me alongar nessa crítica em uma personagem: a irmã de James, Zilpha (Oona Chaplin), que é, para mim, a personagem mais chata e mal aproveitada. A todo mundo você fica esperando que ela diga algo do passado, que ela explique um pouquinho desse mistério gigantesco da família deles, que ela se rebele, sei lá, qualquer coisa, mas não, ela está ali para dar uma humanidade ao irmão louco, só isso. A trama dela começa interessante, a sua riqueza e infelicidade, o retorno do amado irmão que estava morto, o marido violento e inseguro, enfim, as contradições que ela vive podiam ser muito melhor exploradas. No entanto em momento nenhum ela me convence, ela me passa profundidade, na maior parte do tempo ela é de um temperamento imprevisível ruim – acho que é culpa da atriz também.

Um destaque positivo depois desse pequeno desabafo, é Godfrey (Edward Hogg) um amigo antigo de James. Falar do personagem é dar spoilers, mas posso dizer que ele é incrível e um tanto inesperado, o que deixa tudo mais rico. Claro que ele não foge do “Delaneycentrismo” ao qual praticamente todos são construídos, e seria muito interessante poder acompanhar melhor a vida tão misteriosa de Godfrey. E o trabalho de Edward Hogg no papel merece destaque, porque realmente se sobressaiu. Melhor Personagem!

Por fim, o grande vilão da série é a Companhia das Índias Orientais, comandada por Sir Stuart Strange (quase um herói da Marvel) vivido por Jonathan Pryce, esse ator maravilhoso que sabe como ninguém criar um personagem que você pega um ódio nas duas primeiras falas (Alô, High Sparrow, é você). O que me incomodou é o a maior instituição de comércio britânica estar se descabelando por uma ilha pequena de um cara que até ontem estava morto. Achei as ações para a resolução desse problema desproporcionais. Mas eles são ótimos no que se propõem a fazer: inescrupulosos, práticos, cheio de joguinhos e emboscadas, atrapalhados, obstinados, em suma, ótimos vilões, bem cruéis e pragmáticos.

De forma geral, a construção de personagem, que não o protagonista, não é o forte da série, e é algo que eu valorizo muito. Então personagens pouco complexos, com objetivos muitos simples, com motivações pouco aprofundadas me incomodam um pouco.

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A série foi produzida por Ridley Scott, que despensa apresentações, então tudo é bem cinematográfico, grandioso e excelente. A direção de arte está impecável, e é uma das melhores caracterizações do século XIX que eu já vi, especialmente em série. O clima sombrio, as cores sempre escuras e a cidade tomada por fumaça e neblina contribuem demais para a atmosfera do lugar e criam uma identidade ótima, cheia de mistério e frieza. Visualmente a série é impecável.

A verdade é que eu queria ter gostado mais da série do que de fato gostei, e isso e muito triste. Eu adoro histórias ambientadas no século XIX, especialmente quando são em Londres. Eu gosto de ação, ambientações cruas, frias e violentas, da banalidade das coisas no contexto histórico. Amo um mistério, um personagem meio louco, uma fantasia (não falei disso porque foi a parte mais frustrante de toda a série, e não tem nada para falar). E adoro uma produção BBC, dona do meu coração. Então ela tinha tudo para ser UAU, mas não foi, foi ok.

Quero dizer que gostei, que é apesar de não parecer, achei sim que é uma série muito boa. O último episódio foi BEM melhor que todos os outros, eu realmente adorei esse episódio. Mas é uma série muito lenta, que demora para engrenar, e que você não se apega muito aos personagens, só fica curioso com a sensação a todo momento de que algo grande irá acontecer, mas nem sempre acontece. Muito, muito mesmo, do que eu mais queria saber, ficou para a segunda temporada, já confirmada. Tom Hardy, vamos aproveitar melhor o potencial dessa série, vou te dar mais um voto de confiança!

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