Persuadida por Jane

Jane Austen está conquistando seu lugar no meu coração. Persuasão foi o segundo livro que li da autora e não poderia ter amado mais.

Em Persuasão vamos acompanhar a história de Anne Elliot, a filha do meio da família Elliot. Há muitos anos, quando moça, Anne foi persuadida a desistir de seu casamento com Sr. Wentworth, por quem estava apaixonada, devido ao fato de ele ser considerado pela família e amigos próximos como inferior, pobre, e de um futuro financeiro pouco promissor. Desde então, apesar de ter recebido algumas propostas de casamento, Anne se recusa a se casar se não for por amor, permanecendo solteira.

A família Elliot é muito prestigiada na região onde moram. Sir Walter Elliot, chefe da família e baronete, é uma figura socialmente importante, e, ciente disso, é uma pessoa extremamente orgulhosa e arrogante (e não muito querida). Sua filha mais velha, Elizabeth, herdou essas características do pai, e, juntos, adoram julgar as pessoas e desfrutar das bajulações que sua posição social oferece. No entanto, nem tudo continua auspicioso para os Elliot. Enfrentando graves problemas financeiros, e com muita dificuldade de cortar custos (pois abrir mão de certos luxos seria evidenciar para a sociedade seus problemas) eles se vêm obrigados a alugar a casa de campo enorme onde moram, e se mudar para algo mais simples, na cidade.

Os inquilinos de Kellynch Hall, casa dos Elliot, são os Croft. Logo descobrimos que a Sra. Croft é irmã do Sr. Wentworth, e que este se tornou capitão da marinha e aspirou financeiramente – parece que o jogo virou, não é mesmo? Assim, vamos acompanhar toda essa sacudida na vida de Anne, que está se despedindo da casa onde morou a vida inteira, e tinha boas lembrança, e tendo a volta de seu antigo e interrompido amor.

JA 2

Anne é uma personagem muito madura, eficiente e justa, diferente de toda a sua família, e por isso a mais agradável e a preferida por todos. Apesar de narrado em terceira pessoa, passamos quase o livro inteiro imerso nos conflitos de Anne, isso faz com que não só criemos uma empatia por ela, como entendemos o porquê de suas atitudes e como foi o seu processo de amadurecimento. Anne também é negligenciada pelo pai e pela irmã mais velha, tendo suas vontades sempre ignoradas, e, às vezes, até vista como um peso e uma inconveniência. Além disso, é possível ver muito da própria Jane Austen na personagem – ambas preferiram ficar solteiras a se casar com alguém que não amassem, por exemplo.

Fiquei impressionada com a facilidade que me identifiquei com Anne Elliot. Além de ser uma pessoa muito fofa, tímida, delicada, e facilmente persuadida – tem a opinião dos outros, especialmente dos mais queridos, em alta conta, Anne também muito pra frente de seu tempo. A Srta. Elliot contesta diversas vezes durante a trama a forma como a sociedade usa o casamento, os valores distorcidos de algumas pessoas, e o próprio pensamento machista de alguns homens (no contexto que lhe cabia, claro).

Sobre a trama, quem é uma pessoa que se deixa persuadir muito fácil sabe que, às vezes, tomamos decisões que não condiz com o que o nosso coração desejava, mas com o que nos disseram ser certo, e isso nunca acaba muito bem. Não é diferente com a Srta. Elliot, que vive com a sombra dessa decisão por anos, o que acaba influenciando demais na sua personalidade, autoestima, e relação com os demais. Esse foi um dos pontos que não pude deixar de me identificar e de me ver na posição de Anne diversas vezes.

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A escrita de Jane Austen é muito fluida e divertida. Sua linguagem, apesar de densa e característica da época, é repleta de sacarmos e alfinetadas na sociedade e mentalidade daquele período. A história é cheia de reviravoltas, tem um ritmo excelente, e cativa o leitor, de apertar o coração. Além disso, conta com muitos personagens, que são desenvolvidos e tem seu papel bem definido na trama.

Esse é o segundo livro que leio de Jane Austen e já entrei no grupinho “fãs de Jane”. Provavelmente tinha expectativas erradas em relação a autora, pois tanto Persuasão quanto Orgulho e Preconceito me surpreenderam demais! Sai das duas leituras extremamente satisfeita e querendo ler todos os outros trabalhos dela. Que mulher você foi, Jane! É impressionante como ela cria histórias muito além de um simples romance happy ending, mas com personagens femininas empoderadas e muito bem desenvolvidas, críticas sociais e humor. Acho que o mais me impressiona nisso tudo é que, apesar da história datar começo do século XIX, consigo me identificar com diversas situações e personagens – ainda é possível tirar várias reflexões do livro.

Outro ponto muito interessante para mim é a sociedade em 1815, mais ou menos. Eu adoro histórias de época, e ler algo que foi realmente escrito na tal época é muito legal. Interessante analisar quantas coisas mudaram, e quantas ainda permanecem as mesmas – inclusive algumas pessoas e mentalidades que, complicado. O preconceito presente em relação a condição social, o valor que as pessoas naquela época davam para o nome da família, o tamanho da casa (que também tem nome, meu Deus!). Adoro observar como funcionava a dinâmica social, e, que dada as devidas proporções, perceber que no centro de tudo, ainda é meio parecido.

Acho divertidíssimo o modo como as visitas eram realizadas e retribuídas, as preocupações com a hospitalidade, como as relações eram construídas. É muito curioso como, pelo menos nas histórias em que li, as jovens visitam parentes e/ou amigos e passam meses nas casas deles, ou os passeios pelo campo em grupos. E, claro, como os rapazes cortejam as mocinhas, e todo o juramento de amor, e as palavras que utilizam, as trocas de olhares, tudo tão romântico, mas tão diferente haha.

Além disso, o título do livro, Persuasão, está presente ao longo de toda a narrativa. Não sei explicar, mas todos os conflitos dos arcos da história acontecem por causa de alguém sendo ou tendo de ser persuadido. É um tema que está sempre presente, e é abordado de todos os lados: pessoas persuadidas, pessoas que querem persuadir, pessoas não persuasíveis – além de explorar as vantagens e desvantagens de ser persuadido. O mesmo acontece em Orgulho e Preconceito e achei simplesmente GENIAL!

Exaltado como devia, Persuasão é um livro incrível! Comparado com Orgulho e Preconceito, é um pouco mais melancólico, e vemos uma Jane com uma visão um pouco mais madura e cinza do mundo. É um livro curto, acredito que o menor da autora, e foi publicado postumamente. Se você quer ler um clássico, de uma autora mulher (e maravilhosa) dê uma chance para a Jane que ela não vai te decepcionar.

 

OBS: Essas fotos são provisórias.

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