We gotta get away from here

Christopher Nolan ousou mais um vez, e resolveu fazer um filme de guerra. Dunkirk estreou no último dia 27 e já é um clássico do gênero, provando que a hype no diretor sempre é justificada.

De modo geral, filmes sobre guerras, em especial a Segunda Guerra Mundial, sempre são extremamente polarizados, patriotas, romantizados e protagonizados por um homem que transcende a barreira humana e se torna um herói. Em Dunkirk, Nolan não se utilizada da dicotomia e de heroísmo para contar sua história, ele explora a natureza humana de uma forma crua e realista.

A história é baseada em fatos reais, no resgate dos soldados britânicos que estavam encurralados na praia de Dunqueque, França, no ano de 1940. A operação de resgate dura pouco mais de uma semana, e são resgatados cerca de 300 mil soldados por vias marítimas no Canal da Mancha. Essa operação de resgate só foi possível graças à ajuda de civis britânicos que utilizaram seus barcos de pescas, mercantis e  de lazer para buscar os soldados.

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No filme vamos acompanhar três arcos principais: os soldados cercados na praia esperando o resgate e sendo atacados por bombardeios inimigos; os caças britânicos duelando com os alemães; e um barco civil que se dispõe a ajudar no resgate. Com isso, temos uma visão do que acontece em terra, na água e no ar nesse trecho do Canal da Mancha. Aqui já temos Nolan e o seu amor pela não cronologia dos fatos, visto que cada arco acontece em seu próprio período destacado no início do filme, e que com o decorrer da narrativa percebemos onde o diretor quer chegar.

Essa estrutura narrativa ajuda na criação da tensão, agonia e esperança que sentimos durante todo o filme. Não há um momento de alivio cômico, um respiro durante toda a história, ficamos angustiados durante os 108 minutos. Para padrões Christopher Nolan, esse é um filme incrivelmente curto, mas a sensação durante o longa é como se estivéssemos a horas no cinema. Isso é proposital, e um reflexo do desespero e da angustia dos soldados, nós queremos sair daquela situação tanto quanto eles, e a sensação de demora e a crescente desesperança que eles sentem é palpável. É como se aquela situação tensa e agonizante nunca fosse ter fim.

Esse é justamente o foco do filme: a sobrevivência. O filme mal tem diálogos (para quem implica com os diálogos altamente expositivos do Nolan às vezes, aqui não tem HÁ), o que contribui com a introspecção e o desespero das personagens, que estão desoladas tentando achar um jeito de serem salvas. A personalidade é dada pelas suas ações, atitudes diante das adversidades e a luta pela sobrevivência e o compromisso com o dever. Não temos um protagonista, não temos um heroi, e até mesmo a noção do que é certo e errado fica nebulosa na busca pela sobrevivência. As personagens basicamente não têm nomes, não sabemos quem são, mas criamos um laço emocional enorme com elas, outro recurso narrativo muito interessante e que traça um paralelo com a própria situação delas.

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O que dita o ritmo e o clima das situações é a trilha sonora de Hans Zimmer, que entrega um trabalho maravilhoso. A trilha sonora transforma um céu azul limpo em um momento de profunda agonia, por exemplo. A sincronia do som com a ação em tela é absurda e o que torna o filme tão grandioso. E o momento certo da ausência de som também é preciosa e muito bem calculada.

Além disso, quero destacar a fotografia e os enquadramento do filme. Os filmes do Nolan sempre tem uma fotografia impecável, e esse não é diferente. Não apenas deslumbrantes, elas são agonizantes e algumas vezes claustrofóbicas, contribuindo para essa atmosfera de desespero e desesperança. E o que mais me chocava em termos técnicos durante o filme é que Nolan não gosta de usar CGI, então você consegue ver o brilhantismo do diretor em filmar quase tudo no mar, e a produção absurda de tudo aquilo.

Nunca pensei que chegaria a esse ponto, mas fiquei chocada com a mixagem e edição de som. O som dos aviões se aproximando no céu límpido, os navios naufragando, os tiros, tudo era feito com uma meticulosidade típica do Nolan, e que davam desespero. As situações eram incrivelmente reais, e em alguns momentos do filme percebi que eu mesma estava segurando a respiração.

Como vocês já viram nesse post, eu sou fangirl de Tom Hardy – e Chris também, pelo visto haha, e que atuação esse homem entrega. Hardy é um dos pilotos britânicos protegendo o céu dos ataques alemães, e passa o filme inteiro com uma máscara revivendo seus dias de Bane e Max. E só com os olhinhos de fora consegue passar toda a complexidade de seu personagem. E não é só o amuletinho Hardy que Nolan colocou no filme, mas também Cillian Murphy, que está excelente no filme, com um personagem controverso que desperta a reflexão no expectador.

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Por fim, queria aqui um espaço para exaltar a terceira pessoa desse post que eu sou absurdamente fangirl: Harry Styles. Não vou negar a empolgação que eu estava em ver Harry em um filme do Nolan, e também certa preocupação que senti. Mas Styles tem um papel maior do que imaginei, e uma atuação muito boa, nivelada com todos os demais com quem contracena. Fui surpreendida positivamente, e se você está torcendo o nariz por causa desse fato já pode parar, porque ele está excelente no filme, juro!

Dunkirk é o que promete: um filme de guerra diferente da grande maioria. Ele não está ali para exaltar patriotismo e vilanizar o outro lado, mas para evidenciar o drama e o desespero de se estar em um campo de batalha no lado que está perdendo. É um filme brutal, cru e agonizante que não se utilizar de dicotomia e nem de violência (zero sangue, gente), mas de uma tensão e suspense absurdos! Essa é uma parte importante da história britânica na guerra, pois não é uma história sobre vitória, mas sobre a derrota de ter que evacuar o território – e se você olhar no mapa, Dunquerque é muito pertinho da Inglaterra, e os soldados na praia conseguiam ver seu país.

Christopher Nolan me provou mais uma vez porque é o meu diretor favorito e um excelente roteirista, entregando uma obra prima do gênero de guerra, com uma profundidade pouco explorada até então. O diretor sabe como fazer um blockbuster denso e profundo, saindo do óbvio e explorando a natureza do homem e suas relações interpessoais. Espero que você saia do cinema tão impactado e anestesiado quanto eu, porque é aquele filme que mexe com você do começo ao fim. Aguardo as indicações, Academia.

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