A Preciosa Vidinha de Scott Pilgrim

Mais do que incríveis subtítulos, Bryan Lee O’Malley soube fazer a melhor história sobre o amor de todos os tempos, com personagens que são, no mínimo, maravilhosos. Uma HQ que derrotou meu coração.

Scott Pilgrim tem 23 anos e está tentando manejar as dificuldades e exigências da vida adulta. Ele mora com seu melhor amigo gay, Wallace Wells, e é baixista na banda Sex Bomb Omb, e alguém extremamente preguiçoso e sem ambições na vida. Nesse contexto, ele começa a namorar uma colegial de 17 anos, Knives Chau, o que todos seus amigos apontam como uma má ideia. Logo no começo de seu relacionamento com Knives, Scott conhece a garota de seus sonhos, literalmente, Ramona Flowers. O problema é que, para ficar com ela, Scott terá que derrotar seus 7 ex namorados do mal – dar um jeito em algumas coisas da sua vidinha mais ou menos.

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O meu primeiro contato com a história de Scott foi com o filme de 2010, adaptado e dirigido por Edgar Wright. Eu assisti ao filme por volta de 2011 ou 2012, na TV mesmo, como a maioria das pessoas visto que ele foi meio mal de bilheteria. E eu fiquei chocada em como esse filme era absurdamente original e divertido e dramático, e logo se tornou uma das minhas histórias prediletas. Mas primeiro eu vou comentar da minha experiência com os quadrinhos.

Apesar de ter assistido várias (ok, talvez umas 4) vezes ao filme, eu nunca fui atrás de ler as HQs. A gente sempre flertava nas lojas, mas eu acabava priorizando outro livro. Até esse mês tudo mudou, e a oportunidade bateu na porta e eu senti que o momento havia chegado: eu iria ler Scott Pilgrim!

Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado e essas HQs entraram no meu coração daquele jeito que você se torna uma pessoa puramente apaixonada para sempre por aquele pequeno universo. A história é um grande Coming of Age fase 2 – Scott já saiu da adolescência, é adulto, mas ainda tem muito o que amadurecer e aprender. E esse caminho de amadurecimento de Scott é tão bem construído, o desenvolvimento do personagem é nítido, e, literalmente, dito para você.

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O quadrinho mescla brilhantemente vários elementos dos vídeos games, ilustrando o que está acontecendo, como o ganho de experiência, barrinhas de vida etc, a recompensa após a vitória de cada ex da Ramona derrotado, e isso é genial e divertidíssimo. Eu gargalhei horrores em diversos momentos, e outros senti que as palavras que saíam da boca dos personagens eram minhas. Em destaque a recusa de Scott em aceitar que está a adulto, poderia ser facilmente eu dizendo todas aquelas coisas haha.

Uma das coisas que mais me ganhou foi o pinguinho de fantasia que o autor utiliza para construir a narrativa. Já havia visto esse lado do trabalho incrível de Bryan Lee O’malley em Seconds, outra HQ do autor, e é simplesmente genial. A fantasia é uma metáfora maravilhosa, que, a princípio, pode te deixar confuso, te fazer parar e tentar analisar o que aquilo ali realmente está dizendo, mas que no fundo, no seu coração, você está compreendendo. Esse recurso deixa a história mais dinâmica, mais divertida, intrigante, bem louca, e muito mais profunda do que possa aparentar.

Scott Pilgrim nos mostra de maneira descontraída o drama de amadurecer e a complexidade que é se relacionar com alguém. O jeito que o relacionamento de Scott e Ramona é construído e explorado é uma das histórias de amor mais realistas e profundas que eu já vi. Diversas vezes me vi rindo horrores da situação ao mesmo tempo que estava triste e preocupada com o andamento das coisas. Ramona é uma personagem cheia de camadas, difícil de ser compreendida, e que logo eu me identifiquei. Me conectei demais com ela e com Scott, com os dramas e dilemas dos dois, e passei alguns nervosos também haha.

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Não só de protagonistas uma série vive, então vamos comentar sobre os MARAVILHOSOS personagens secundários. Eles são muitos, e não tem nenhum que eu não goste. Cada um tem uma personalidade bem definida, única, complexa e que acrescenta a narrativa. Além de uma história sobre o amor (tipo 500 dias com ela, nesse sentido), também é uma história sobre amizade. Quero destacar os meus dois personagens favoritos: Wallace Wells, companheiro de quarto de Scott, e Kim Pine, baterista da Sex Bomb Omb, eles são incríveis, queria que fossem meus amigos. E menção honrosa para Gideon, o cara mais do mal dessa história, que deixou ela muito mais rica.

“Ok, mas ele não tem que derrotar os 7 ex namorados do mal da menina, como é isso” você deve estar se perguntando. Bom, tem, e Scott luta contra cada um deles, literalmente, com muita ação, piração, metáforas e piadas no meio, e é através dessas lutas que aprendemos um pouco mais sobre a Ramona e que o Scott se desenvolve. É genial e muito divertido, juro.

O traço do quadrinho é no estilo que eu chamo de fofo, uns chamam de tosco, fica a seu critério haha. É simples, mas muito expressivo (e divertido), você consegue sentir as emoções dos personagens. O timing e o enquadramento são muito bem construídos, eles trabalham juntos em favor da história, criando excelentes momentos de tensão, ótimas transições de cenas, deixando a leitura fluida e muito envolvente. Bryan Lee O’Malley se inspirou muito nos mangás para criar seu trabalho único. A linguagem dos personagens é sarcástica, divertida e condizente com eles, ajudando a criar suas personalidades – além de ser repleta de metalinguagens muito legais.

Depois de ler os 3 volumes versão BR (a obra original são 6 volumes, aqui eles foram compilados), fui reassistir ao filme, porque tinha muito tempo desde a última vez que o vi, e o que tenho a dizer é que é uma das melhores adaptações dos quadrinhos para o cinema. Edgar Wright consegue trazer a essência de game do quadrinho pra tela de uma maneira impecável. A montagem do filme é dinâmica, ousada e é possível fazer o quadro a quadro com quadrinho na maior parte do longa. Ele tem um estilo todo diferente, meio doidinho, incrivelmente legal, se mantendo fiel a sua origem.

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Os personagens são outro ponto muito bem adaptado, e isso significa que não são cópias, mas são o que precisavam ser nessa mudança de mídia. Bem como a história em si, que sofre alterações, mas não perde a essência – algumas metáforas mudam, algumas situações e aprofundamentos são deixados de lado, mas isso não prejudica em nada a obra final. Ah sim, o final da HQ e do filme são bem diferentes, mas ao mesmo tempo não são, é complicado, mas eu gostei da forma como os dois foram construídos, cada um culminou no que desenvolveu ao longo da história. É possível enxergar o quadrinho e o que ele tem de melhor em cada cena do filme, e não poderia ter sido feito por outra pessoa além de Edgar, que diretor excepcional.

O elenco do filme é recheado de pessoas queridíssimas como Chris Evans, Anna Kendrick e Brie Larson. Scott Pilgrim é vivido por Michael Cera, fazendo o que sabe fazer, ser um jovem bobinho e divertido (e mesmo assim eu adoro esse menino haha) e Ramona Flowers é a maravilhosa Mary Elizabeth Winstead, que eu assisti a no máximo três filmes com ela, mas que mulher! E aqui vai a única crítica: M. Cera não é exatamente o Scott ideal, não é o auge da indignação, mas ele deixa a desejar um pouquinho.

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Scott Pilgrim Contra o Mundo é definitivamente uma das minhas histórias prediletas da vida. O filme tinha sido apenas um preview de todo o amor e devoção que tenho a esse universo agora. Li essa história no momento certo, e ela mexeu muito comigo. Gostaria de falar bem mais a respeito (mais? Sério? AHAM haha) mas seria spoilers. Vou guardar minhas teorias e pesquisas para quem já leu e quiser conversar sobre haha. Então, se você está ai, ocupado ou não, dê uma chance para Scott e Ramona te contarem uma excelente e divertida aventura – tem o filme na Netflix, corre!

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